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Ritual, intercâmbio cultural e cobrança por melhores condições marcam evento na terra Nambikwara

Índios Nambikwaras recebem estudantes e convidados para festa e dão início a ritual de passagem “menina moça”

Cerca de 30 alunos na faixa etária de 10 anos participaram de um intercâmbio na Terra Indígena Nambikwara, em Comodoro (MT), como parte de um projeto pedagógico da escola de incentivo à cultura do respeito à diversidade dos povos. A experiência dos alunos do quinto ano da Escola Municipal Nossa Senhora das Graças aconteceu no dia 19 de abril, data em que se comemora o Dia do Índio.

Kauany Vitória Mondini da Silva, de 10 anos, foi uma das primeiras a receber a pintura de urucum no rosto, tal como as meninas índias da mesma idade exibem. “Eu acho um passeio muito legal porque quando a gente vem conhecer os índios dá pra ver que a vida deles é uma trajetória muito importante. O Dia do Índio não é só hoje, é todos os dias. Eu tenho colegas indígenas na escola e a professora estuda muito com a gente sobre a vida deles”, contou a aluna do 5º ano.

Perguntado sobre a experiência de intercâmbio na aldeia, Érique dos Santos Pereira, de 10 anos, foi objetivo na resposta pra voltar rápido ao jogo de futebol no campinho de terra sob o sol das 10 horas da manhã. “Eu vi que nós somos iguais, tudo (sic) ser humano do mesmo jeito. A única diferença é a cultura; e que eles vivem aqui [na aldeia] e eu vivo lá [na cidade]”.

“A experiência de vida e a cultura deles muito nos interessam. É uma honra estarmos aqui na aldeia, e acreditamos que Dia do Índio não é só 19, é todos os dias. A gente está aqui pra mostrar que também somos integrantes desse processo de valorização cultural“, afirmou a professora Angela Maria Zanon, que acompanhava a turma de alunos.

A data foi vivenciada de uma forma diferente não só para as crianças da cidade, mas também para a comunidade indígena que há um ano, neste mesmo dia, bloqueava a BR 174 e cobrava pedágio dos motoristas que seguiam viagem.

A mudança na postura da comunidade foi avaliada pelo procurador da República Thiago Bueno como resultado da aproximação do poder público responsável pela prestação de serviços pleiteados pela comunidade, como melhorias na saúde, na educação e na autonomia alimentar.

“O MPF está presente neste momento pra demonstrar mais uma vez que a instituição está ao lado dos indígenas e também para trazer os órgãos públicos que têm responsabilidade nessa atuação em prol da efetivação dos direitos dos povos indígenas para perto deles para que sintam-se como verdadeiros cidadãos que é o que verdadeiramente são“, afirmou o procurador da República durante o evento e na presença de diversas lideranças indígenas presentes.

O cacique geral da Terra Indígena Nambikwara, Jair Nambikwata Halotesu, falou sobre a construção de uma relação de confiança da comunidade indígena com o Ministério Público Federal ao longo dos últimos doze meses. Segundo ele, há um ano foi a primeira vez que um representante da instituição esteve na comunidade e que a partir daquele momento a interação foi aumentando. “Ano passado a gente tava na rodovia bloqueando e cobrando pedágio. Já nesse ano a comunidade ouviu a orientação do MPF e resolveu fazer diferente“.

Segundo o cacique-geral, o dia é sagrado, mas não é dia só de festa. Pedidos de melhores condições de educação, saúde e investimentos na comunidade foram feito por meio da leitura de uma carta pela liderança Mané Manduca e entregue ao Ministério Público Federal com reivindicações destinadas a vários órgãos públicos e na presença de representantes da Funai, da Prefeitura de Comodoro e da Secretaria Especial de Saúde Indígena.

Entre as reivindicações da comunidade indígena estão a destinação de parte da arrecadação do ICMS Ecológico, a conclusão da obra de diversas escolas que estão paradas, o atendimento básico de saúde dentro da aldeia e a definição das compensações pela construção da pequena central hidrelétrica Juína 117.

A realidade atual dos indígenas é de graves problemas em segurança alimentar e na prestação de serviços de saúde e educação. ‘O Ministério Público Federal tem atuado em todas essas áreas em prol dos índios e cobrando dos órgãos responsáveis medidas concretas. Mais recentemente intermediamos a tentativa de solução junto à Secretaria Especial de Saúde Indígena para implantação de equipes de médicos e enfermeiros nas aldeias”, ponderou o procurador da República. Há menos de dois meses, o MPF realizou uma audiência pública sobre saúde indígena e que teve como resultado a proposta de retomada do atendimento básico dentro das aldeias para dois mil indígenas das terras Nambikwara, Vale do Guaporé e Sararé, na região Oeste de Mato Grosso.

Ainda segundo o representante do MPF, é imprescindível que prefeituras, secretarias municipais e o Governo do Estado também cumpram o seu papel e se integrem na prestação desses serviços necessários para uma vida digna.

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