“Intolerância e Migração” foi tema de espaço de conversa promovido pelo MPF em Caxias do Sul (RS)
O projeto Lugar(es) de Fala, da Procuradoria Regional dos Direitos do Cidadão (PRDC) e do Comitê de Gênero e Raça da Procuradoria da República/RS, desembarcou em Caxias do Sul na última sexta-feira (4) para promover um espaço de conversa aberto ao público sobre um tema caro aos dias de hoje: intolerância e migração. Ao longo de pouco mais de duas horas, representantes da comunidade de migrantes do município – um dos principais destinos do fluxo migratório dos últimos anos no Estado – compartilharam suas histórias e experiências com a plateia, que, assim como os convidados, era composta por gente de diferentes origens e nacionalidades.
Ao dar as boas-vindas aos presentes, a procuradora da República em Caxias do Sul Sônia Cristina Niche aproveitou para destacar que, apesar de ter ficado mais conhecido em virtude da sua atuação no combate à corrupção, como no caso da operação Lava Jato, o Ministério Público Federal (MPF) também realiza um trabalho de defesa de minorias e dos direitos do cidadão, que traz resultados bastante positivos. "É um trabalho de formiguinha, bem difícil e árduo, mas do qual tenho muito orgulho”, afirmou.
Conduzido pelas servidoras Maria Rodrigues e Lisane Berlato, integrantes do Comitê de Gênero de Raça da PR/RS, o evento teve início com a exibição do documentário de curta-metragem “Nós”, de Thiago Simas e Lucas Storck, que mostra a trajetória cíclica dos refugiados através dos tempos. Logo na sequência foi aberta a roda de falas, que contou com os relatos francos e comoventes de Melek Ozorpak, da Turquia; Tamsir Ibrahima Thiam, do Senegal; e Monette Esperance, do Haiti. Participaram da conversa, ainda, a assistente social Vanessa Perini Moojen, do Centro de Atendimento ao Migrante (CAM), e a representante do Centro de Referência de Assistência Social (CRAS), Luiza Travi Teixeira.
Nascida na Turquia, mas residindo no Brasil há 15 anos, Melek Ozorpak contou que sua relação com a intolerância começou desde muito cedo, ainda em seu país de origem. Por ser muçulmana e usar o lenço característico da religião, ela relatou ter sido impedida de entrar em escolas e instituições públicas. Hoje, integrando uma das cinco famílias turcas vivendo em Caxias, Melek disse ainda receber olhares desconfiados e comentários equivocados em razão da vestimenta. Porém, apesar de tudo, confessa ter mais motivos para agradecer do que reclamar da vida no Brasil. E como prova disso, concluiu a sua fala presenteando a plateia com deliciosos biscoitos típicos do seu país.
Apesar da dificuldade com a língua portuguesa, o senegalês Tamsir Ibrahima Thiam fez questão de usar o idioma para levantar a bandeira da liberdade, da igualdade e da fraternidade, que, segundo ele, deveriam reger a relação entre brasileiros e migrantes. "Vivemos em uma sociedade globalizada: um indiano ganha a vida em Dacar, um senegalês pode ganhar a sua vida aqui no Brasil, um brasileiro pode ganhar a vida no Canadá. Gostem ou não, é irreversível. Então vamos encontrar uma solução para vivermos juntos", ponderou, lembrando também que os migrantes são cidadãos produtivos, que pagam impostos e geram benefícios ao país.
Monette Esperance, haitiana que chegou ao Brasil em 2013, contou que vende mercadorias para sustentar os quatro filhos porque nunca conseguiu um emprego formal. Segundo ela, grande parte das empresas da cidade alegam não ter vagas para estrangeiros, apesar disso contrariar a legislação. Tais atitudes discriminatórias acabam sendo compartilhadas também pela população local. "As pessoas sempre perguntam, 'Por que tu não volta para tua terra? Aqui não tem serviço nem para brasileiros, [você vindo para cá] fica mais difícil para nós'... Ouvir isso dói", lamentou.
Integrando o time de convidados, a representante do Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) do município, Luiza Travi Teixeira, lembrou que o Rio Grande do Sul é principalmente formado por imigrantes e a tendência é que os fluxos migratórios sigam crescentes. Apesar disso, ela disse ser notória a falta de equipamentos públicos específicos que atendam a população migrante. "É urgente a gente fazer essa reflexão e se unir no sentido de poder criar uma política pública efetiva e implementá-la com êxito. Precisamos entender os fluxos migratórios como um direito humano", sentenciou.
Para a assistente social Vanessa Perini Moojen, do Centro de Atendimento ao Migrante (CAM), alguns dos principais violadores de direitos e praticantes de discriminação contra os migrantes são os próprios gestores públicos, que se valem de mitos em torno dessa população – como o que afirma falsamente que os imigrantes recebem um salário-mínimo do governo – para culpá-la pelos problemas causados pela precarização das políticas públicas. Vanessa acredita ser preciso "desconstruir todas essas falas revestidas do senso comum".
Concluídos os relatos, a conversa foi aberta ao público, que pôde colocar questões aos convidados ou mesmo compartilhar suas próprias histórias. Em sua maior parte, as manifestações da plateia foram no sentido de cobrar do poder público medidas efetivas para solucionar os problemas enfrentados pelos migrantes residentes no município.
Na sequência, os convidados receberam das mãos da procuradora da República Luciana Guarnieri um certificado de participação, como forma de agradecimento. E para encerrar o encontro de maneira especial, integrantes do grupo de tambores africanos Sabar África presentearam a todos com uma apresentação que levou até o auditório da Procuradoria da República em Caxias do Sul a mistura das batidas ritmadas da música senegalesa e ganesa.
O projeto - Essa já foi a quarta edição da iniciativa Lugar(es) de Fala, mas a primeira delas realizada fora de Porto Alegre. De acordo com a procuradora da República Suzete Bragagnolo, coordenadora do Comitê de Gênero e Raça da PR/RS, o projeto tem como objetivo "realmente abrir o Ministério Público para a sociedade civil, possibilitando que as pessoas possam ser ouvidas".
Nesse mesmo sentido, o procurador regional dos Direitos dos Cidadãos, Enrico Rodrigues de Freitas, ressaltou a importância de se ter espaços em que as pessoas possam dividir os seus relatos sobre os mais diversos temas, o que acaba por quebrar paradigmas e criar algo muito importante: a empatia. "A gente começa a de fato ouvir a outra pessoa, e isso é uma forma de desfazer preconceitos e visões equivocadas", concluiu.
A edição anterior do Lugar(es) de Fala, realizada no mês de junho, em parceria com a Comissão Pró-equidade de Gênero e Raça da PRR4 e o apoio da Comissão Permanente de Acessibilidade e Inclusão do TRF4, abordou a temática do orgulho LGBTQI+ e contou com um show de encerramento da cantora Valéria Barcellos.

