Projetos Encontros da Cidadania encerra seu primeiro ciclo de debates
O Ciclo de Debates sobre Violência contra a Mulher terminou nesta quarta-feira (9), com a realização do webinar Ser homem e ser libertado: a superação da masculinidade tóxica e a ressocialização do agressor. Visualizado por mais de 300 pessoas, o evento contou a presença do procurador federal dos Direitos do Cidadão Carlos Alberto Vilhena, que ressaltou a importância do tema para a compreensão e superação da violência de gênero, afirmando que “precisamos entender os fundamentos da cultura machista e patriarcal, infelizmente, ainda presentes em nossa sociedade para somente assim combatê-la com eficiência”.
O primeiro painelista, Guilherme Valadares, diretor de pesquisa do Instituto de Pesquisa & Desenvolvimento em Florescimento Humano (PDH) e editor-chefe do Papo de Homem, trouxe dados de um estudo realizado com mais 20 mil pessoas que mapeou as construções das masculinidades. Ele esclareceu que esses dados questionam a narrativa usual de masculinidade. “A gente domina a política, economia, inúmeros espaços de fala, mas a gente lota os cemitérios, lota as prisões, vive sete anos a menos, lota subterrâneos, maior parte da população de rua”. Nesse contexto, explicou que o conceito de masculinidade leva extremos: no topo, em maior parte, homens brancos e heterossexuais; no extremo de baixo, homens negros, de periferia, com deficiência, não heterossexuais.
Em seguida, a professora associada do Departamento de Psicologia Clínica da Universidade de Brasília (UnB), Valeska Maria Zanello de Loyola, afirmou que a masculinidade no Brasil tem como base central a misoginia. “Ser homem é não ser uma mulherzinha, ou seja, é demonstrar repúdio pelas mulheres e pelas qualidades femininas”. Em seguida, explicou os resultados da pesquisa feita com base em acesso a mensagens trocadas em grupos de whatsapp masculinos, destacando a identificação de seis temas principais objeto dessas mensagens: objetificação sexual das mulheres - sendo mais forte com mulheres gordas, negras e velhas - ; “ser homem é não ser gay”; o homem é guiado pelo sexo e o poder da mulher é seu órgão sexual, perante a qual ele deixa de ser ético, deixa a família e o dinheiro; a relação entre mulher e comida; e rir de forma cúmplice de violências cometidas contra mulheres. Ela destacou também o fato de que se tornar homem é marcado por um embrutecimento da relação consigo mesmo, da relação com as mulheres, da relação com os outros homens, e tem base em dois pilares, a virilidade sexual e a laborativa.
O último painelista, Mário R. Assumpção, juiz da Vara de Violência Doméstica e Familiar Contra a Mulher, falou de sua experiência como juiz à frente de grupos reflexivos, e de como é importante a intervenção multidisciplinar para a ressocialização do agressor. Para ele, faz-se necessário que as políticas públicas evoluam, como é o caso dos grupos reflexivos, obrigatórios por lei. “É pensar sobre como a gente constrói princípios, como é que a gente olha para o usuário desse serviço, e como é que a gente vai interagir as disciplinas, que têm linguagens diferentes, mas que são tão necessárias, quanto, por exemplo uma sentença, uma decisão judicial”.
A moderadora, Priscila Schreiner, procuradora da República e integrante do GT seguridade social e população em situação de rua, da PFDC, refletiu sobre a necessidade de desconstruirmos estereótipos que as crianças ouvem desde o nascimento, como por exemplo, de que homem não chora. Ela agradeceu o convite para mediar o webinar feito pelo Grupo de Trabalho Mulher, Criança, Adolescente e Idoso: Proteção de Direitos, criado por meio da Portaria PFDC 8/2020.
Organização – O ciclo de debates foi organizado pelo grupo que atua no fortalecimento das políticas públicas voltadas para a proteção e promoção dos direitos da mulher, criança, adolescente e idoso, incluindo o enfrentamento da violência, em suas diversas formas. Fez parte ainda dos 16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres, uma campanha anual e internacional, que começou no dia 25 de novembro, Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres, e terminou nesta quinta-feira, 10 de dezembro, Dia Internacional dos Direitos Humanos.
Em 2020, novos seminários online devem ser promovidos no âmbito do Projeto Encontros da Cidadania, que tem como propósito fortalecer a rede em defesa dos direitos do cidadão, promovendo debate de ações e estratégias que tornem ainda mais efetiva a defesa dos direitos do cidadão pelo Ministério Público Federal.
Para assistir os webinars, acesse:
Ser mulher e ser discriminada: a superação do racismo e da misoginia
Ser mulher e ser respeitada: a superação da precarização trabalhista
Ser mulher e ser assediada: a superação do patriarcado e da violência de gênero
Ser mulher e ser presidiária: a promoção da dignidade humana no sistema carcerário
Ser homem e ser libertado: a superação da masculinidade tóxica e a ressocialização do agressor

