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Especialista alerta que silêncio de vítimas e testemunhas dificulta combate ao assédio moral

Em entrevista, Leandro Soares explica como os próprios servidores e integrantes da instituição podem ajudar a prevenir essa prática nociva no trabalho

O assédio moral no trabalho pode ocorrer tanto em empresas privadas, quanto em órgãos públicos, e independente do local acarreta graves prejuízos à saúde e ao ambiente organizacional. É o que alerta o  mestre em Psicologia Social e do Trabalho pelo Instituto de Psicologia da Universidade de Brasília (UnB), Leandro Queiroz Soares, autor do do livro "Interações Socioprofissionais e Assédio Moral no Trabalho: 'ou você interage do jeito deles ou vai ser humilhado até não aguentar mais”.

O especialista explica que o medo e a vergonha são fatores que levam as pessoas a não denunciarem esse tipo de prática, o que dificulta o combate. Em entrevista, ele destaca a importância de saber como identificar o assédio moral e denunciá-lo, além de mostrar como os próprios servidores e integrantes da instituição podem ajudar a prevenir essa prática nociva.  

Há diferença entre o assédio praticado em instituições públicas e empresas privadas?

Seja na instituição pública ou na empresa privada, o assédio moral no trabalho acarreta graves consequências e se manifesta por meio de ações que visam desestabilizar, difamar, isolar e, muitas vezes, excluir o assediado do contexto, e nesses aspectos não há diferenciação ambiental na manifestação do fenômeno. A diferença mais expressiva diz respeito a maior estabilidade no emprego do servidor público, o que leva o assediador, quando objetiva de maneira mais ou menos consciente a exclusão do assediado, a “forçar”  os pedidos de remoção ou de exoneração da função “voluntariamente”, enquanto que nas empresas privadas é comum o assediador atingir o seu objetivo último “induzindo”, pela violência, o pedido de demissão “voluntária”  por parte do assediado.

Quais as dificuldades em lidar e punir casos de assédio moral?

A maior dificuldade está, na verdade, em se desvelar o assédio moral no trabalho, já que o mais comum é que esse fenômeno se expresse de maneira bastante velada, ao ponto de mesmo para aqueles que estão presentes ao longo de toda a jornada de trabalho, na condição de expectadores, ser difícil identificar que está transcorrendo essa grave modalidade de violência. Lembro que o próprio assediado muitas vezes custa a reconhecer que está sendo violentado. Não foi por outra razão que o especialista Roberto Heloani, da Unicamp, qualificou o assédio moral no trabalho como “violência invisível”, que pode ser infligido a outrem, por exemplo, por meio de gestos e expressões percebidas apenas pela vítima ou pelo simples ato de ignorar a presença - o que faz o assediado vivenciar a desagradável sensação inerente ao fenômeno da “invisibilidade social”.

As pessoas costumam ter medo de denunciar ou vergonha de falar sobre o assunto?

Mesmo quando o assédio moral é identificado por colegas que presenciam as ações violentas, dificilmente esses se prestam a testemunhar em favor da vítima, sobretudo pelo medo de sofrerem retaliações ou de se tornarem “a próxima vítima”  - particularmente quando se trata do assédio moral descendente (quando praticado por um superior hierárquico).Também há a questão da vergonha. Alguns assediados, sobretudo quando foram sujeitados ao assédio sexual, sentem vergonha de levar uma denúncia adiante. E, indubitavelmente, o “silêncio”  da vítima ou das testemunhas oculares dificulta substancialmente ou mesmo impede o combate à violência.

De que forma os colegas de trabalho podem auxiliar a vítima?

Além da coragem para denunciar aos canais internos competentes  o que está sendo testemunhado, o simples ato de demonstrar desaprovação perante as diversas expressões violentas do assediador já contribui substancialmente para auxiliar a vítima, pois, conforme algumas experiências em pesquisas que já realizei com grupos de trabalhadores, o assediador parece, muitas vezes, “se alimentar”  do apoio da audiência presente, ainda que por meio de um simples sorriso perante uma pretensa “brincadeira”  que verbalizou. Quando o grupo demonstra desaprovação por meio de gestos ou expressões, mas nunca por violência, naturalmente, o assediador tende a se sentir enfraquecido e, muitas vezes, pode vir a recuar. Observe, portanto, que quando estamos a presenciar, por exemplo, o relato de uma piada com teor discriminatório contra alguém e, como tal, violenta e depreciativa, se sorrimos estamos a validar a violência e, ainda que não o queiramos, nos tornando cúmplices daquele que está a violar a dignidade do outro.

Uma pessoa pode receber retaliações por denunciar caso de assédio moral no trabalho?

Embora isso seja possível, cabe à instituição se comprometer a efetivamente proteger o denunciante - com a devida previsão em normativos internos -, especialmente ao longo de todo o procedimento de apuração que idealmente deve ser conduzido.

Como empresas e instituições podem combater o assédio moral e punir quem o pratica?

O que sugiro é que, antes de se chegar a punições e além dos contínuos esforços para suscitar a conscientização acerca da gravidade do fenômeno e da responsabilidade inerente a todos os membros da instituição, sejam realizadas investigações minuciosas perante cada denúncia, conduzidas por profissionais capacitados para tanto - que podem estar vinculados à comissões de ética, ouvidorias internas, comissões permanentes especializadas no combate à violência no trabalho etc. E, uma vez desvelado, que naturalmente sejam efetivamente aplicadas as sanções disciplinares que devem estar formalmente previstas em normativos internos, como códigos de conduta.

Qual a melhor forma de prevenir o assédio moral no ambiente trabalho, sobretudo no setor público?

Ao nos conscientizarmos e deixarmos de corroborar com a cultura da violência que prevalece, estaremos a instaurar, gradativamente, uma força antitética, uma contracultura que, se chegar a envolver a maior parte dos membros do contexto organizacional em questão, pode vir a se tornar a nova cultura sócio-organizacional, pautada na fraternidade, no sentido de sermos solidários ao outro, de nos colocarmos no lugar do outro e, assim, efetivamente respeitarmos a dignidade humana. Em suma, creio que cabe a cada um, individualmente, se conscientizar da necessidade de envolver-se ativamente em tal processo de construção, partindo primariamente de uma simples regra: tratar a todos da mesma maneira respeitosa, afetuosa e solidária pela qual gostaria de ser tratado.

Veja a íntegra da entrevista.

Mais informações na cartilha “Assédio Moral, Sexual e Discriminação”.

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