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MPF debate com a sociedade novas diretrizes para o turismo nas fazendas do Vale do Café (RJ)

Professores, representantes das comunidades negras, das fazendas e do poder público concordaram quanto a necessidade de conferir igual espaço às múltiplas visões sobre a história da região, valorizando o papel do negro
O Ministério Público Federal em Volta Redonda (MPF/RJ) realizou nessa terça-feira (23), em Vassouras, audiência pública para tratar da valorização da cultura e da história do povo negro no turismo das fazendas do Vale do Café. Durante o evento, simbólico prédio da Câmara Municipal, construção do século XIX, ficou acordada a elaboração de diretrizes para o turismo da região, com a participação de várias representações, no prazo de 30 dias.

Confira aqui fotos da audiência pública.

Na audiência pública estavam presentes representantes de entidades negras, o subsecretário de Turismo do Estado do Rio de Janeiro, os secretários de turismo, cultura e educação de Vassouras, representantes de fazendas e professores da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio).

As lideranças negras foram as primeiras a fazer uso da palavra. Lembraram o passado de resistência e destacaram a importância de ações afirmativas como a do Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) firmado com a Fazenda Santa Eufrásia. "O TAC apenas solicita que se mostre a verdadeira história e valor do negro", explicou a membro do Jongo Caxambu Renascer de Vassouras, Cláudia Mamede. Já Toninho Canecão, liderança da comunidade quilombola São José da Serra, declarou que audiência era uma oportunidade de aproximar as fazendas e as comunidades negras. "De um lado, só se fala em barão, o que é compreensível, mas tem que falar também dos negros, pois essa união só irá fortalecer o turismo na região, beneficiando a todos", destacou.

As falas convergiram para a necessidade de aprofundar a reflexão e a valorização da história do povo negro no turismo da região. O professor da Unirio Ricardo Salles ressaltou a necessidade de entender e valorizar essa história e o patrimônio que se tem nessa região, com influência na educação das crianças, jovens e adultos. A professora da Universidade Federal Fluminense (UFF) Martha Abreu destacou que os espinhos da escravidão devem ser contados, mas também devem ser ressaltadas as formas de resistência, formações das famílias e as religiões. A professora da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio) Keila Grinberg enfatizou a responsabilidade que o turismo deve ter ao dar espaço às diferentes histórias e memórias. "Esse turismo deve ser sensível ao passado, principalmente com o grupo escravizado e que tem muito o que contar", pontuou.

Proprietário da Fazenda Florença, localizada em Rio das Flores, Paulo Roberto dos Santos parabenizou a iniciativa e colocou a necessidade de que seja construído um caminho com orientações para uma nova forma de fazer o turismo. "A escravidão foi uma aberração. Se alguma fazenda organiza atividade que possa ser considerada racista, tenho certeza de que é involuntário, mas devemos corrigir", analisou.

Os representantes do poder Legislativo compareceram à audiência e reconheceram que o tema não recebe a devida importância. O presidente da Câmara Sandro Delgado defendeu uma postura mais pró-ativa do município quanto ao tema. A vereadora Rosi Farias noticiou que apresentará projeto para a celebração do dia de Manoel Congo em 6 de setembro, com a previsão de obrigações às escolas do município para realizarem atividades relacionadas à história do povo negro. "Queremos elaborar um calendário municipal sobre a história do povo negro", afirmou.

Representante do Instituto Preservale, Julio Rocha, que congrega representantes das fazendas e de outros setores na preservação do patrimônio histórico da região, valorizou o esforço conjunto na audiência e lembrou iniciativas que podem ser adotadas. Ressalvou ainda que não é possível esquecer a escravidão.

Os representantes do Poder Público Municipal e a Secretaria de Turismo informaram as medidas que pretendem adotar para cumprir recomendação já expedida pelo MPF. "Vamos cumprir a recomendação e apresentar um planejamento para melhor cumprimento da Lei nº 10.639/2003", informou a secretária de educação Ana Paula Lima.

Ao final, o procurador da República Julio Araujo informou que pretende elaborar uma recomendação a respeito do tema, a ser construída a partir da contribuição das diversas representações, que levarão subsídios ao MPF. Um grupo será constituído e deverá apresentar sugestões em no máximo 30 dias.


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