Utilizado como ferramenta de comunicação no MPF, cordel é reconhecido como patrimônio imaterial pelo Iphan
Neste mês, a literatura de cordel foi reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial Brasileiro pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). A decisão foi tomada em 19 de setembro, por unanimidade, pelo conselho colegiado do instituto. No Ministério Público Federal (MPF), além de o patrimônio público ser uma das áreas de atuação do órgão, o cordel também é uma ferramenta que ganhou recentemente mais espaço no MPF.
Exemplo disso é a recente campanha sobre as eleições de 2018 que o MPF tem divulgado em âmbito nacional. Combinando versos, palavras rimadas e imagens bem-humoradas, os cartazes da campanha abordam a importância, o sigilo e o poder de escolha do voto. De acordo com Cláudia Holder, analista de comunicação da Procuradoria Regional da República na 5ª Região (PRR5) e uma das criadoras da campanha, através do cordel, o órgão pôde se aproximar mais de toda a população.
“O MPF, embora seja, por assim dizer, o advogado da sociedade, acaba tendo essa linguagem muito técnica, às vezes, e as pessoas não compreendem ou acham chato. Então se a gente fala uma linguagem usando a cultura popular, termos e expressões regionais para passar informações, acho que a gente chega mais junto da população, junto das pessoas a quem o MPF atende”, afirmou Holder.
Cordel estratégico – Em Pernambuco, além da campanha das eleições, Cláudia Holder também escreveu um cordel sobre a atuação do órgão em relação ao planejamento estratégico. “Foi ideia da nossa então assessora de planejamento estratégico que queria um material para distribuir no encontro da PRR5 e a Procuradoria da República em Pernambuco, para explicar certas questões importantes que algumas pessoas tinham certa dificuldade de compreender. E ela que deu a sugestão de fazer em cordel [...] Então a ideia era passar esse conteúdo de uma forma simples e explicar aqueles termos [técnicos], mas também tornar aquilo atraente para as pessoas”.
Cordel paraibano – A Paraíba é um dos estados expoentes na prática do cordel e tal expressão também vem sendo utilizada pelo MPF tanto na comunicação interna quanto na externa. O servidor Manoel Sá, técnico administrativo lotado na Procuradoria Regional dos Direitos do Cidadão, já produziu diversos cordéis para o órgão, abordando temas como outubro rosa, violência obstétrica, direito eleitoral, transposição do rio São Francisco, setembro amarelo, processo jurídico-penal, entre outros.
Manoel Sá começou a arte da rima em 1999, a partir do interesse pela literatura e poesia. O primeiro cordel veio das histórias de pelada pós-expediente. Depois da primeira obra, ele passou a trabalhar como assessor jurídico-penal do MPF e, assim, escreveu um cordel sobre esse processo penal. Com a repercussão positiva no órgão, o cordel foi passado para os novos estagiários do setor por ser de fácil assimilação e Manoel foi convidado a escrever mais e mais cordéis para a instituição.
“A Assessoria de Comunicação do MPF na Paraíba (Ascom) pedia: ‘dá para escrever sobre tal assunto?’, aí eu estudava o tema e ia escrevendo”, disse. Manoel não produz rima de improviso, ele se dedica ao estudo do tema a ser abordado para poder escrever. “Eu aprendi muito, tanto de conteúdo quanto de vocabulário. É preciso saber bem do que você vai falar e conhecer muitas palavras, até para rimar e entrar na métrica. [...] Às vezes, uso algumas ferramentas da internet que me ajudam a encontrar palavras que rimam, mas o processo todo é de muito aprendizado”, salienta.
Inspirado em Leandro Gomes de Barros - considerado o primeiro escritor de literatura de cordel e um dos maiores poetas populares do Brasil - o técnico administrativo agora tem interesse em aprender a técnica de xilogravura e, no futuro, lançar uma coletânea de todos os seus cordéis que estão sempre em processo de aprimoramento.
Sobre o cordel - Os cordéis são folhetos que trazem histórias curtas, escritas tradicionalmente em estrofes de seis versos rimados. O nome tem origem na forma como os folhetos eram expostos à venda, pendurados em cordas, em Portugal, durante o período renascentista. Desde o surgimento até os dias atuais o nome se manteve, mas o cordel ganhou mais traços, sotaques e, agora, reconhecimentos.

