Mais de 80 quilombolas participam de oficina durante a FPI/SE
Mais de 80 quilombolas da comunidade Rua dos Negros participaram, na terça, 12, da oficina “Um Rio dos Quilombolas”. A atividade foi solicitada aos técnicos da equipe Patrimônio Cultural e Comunidades Tradicionais na segunda, 4, quando eles visitaram o quilombo. “Organizamos o evento rapidamente, a tempo de conseguir realizá-lo ainda durante a 5ª etapa da Fiscalização Preventiva Integrada em Sergipe”, explicou o coordenador da equipe, o historiador Marcos Paulo Carvalho. 
“Nossa equipe ficou bastante surpresa com o público, que foi muito maior do que poderíamos imaginar”, relatou a antropóloga Morena Freitas. “Inicialmente ficaríamos numa sala de aula da Escola Antônio Alexandre dos Santos, mas depois tivemos que ir para o pátio e falar em microfones, pois a sala já não nos comportava”, completa.
O objetivo do encontro foi identificar as principais demandas da comunidade, as ações que eles desejam realizar e indicar possíveis parcerias para dar andamento às questões levantadas. A oficina também criou um espaço para que os participantes pudessem falar sobre os aspectos que os identificam enquanto quilombolas dessa comunidade.
Metodologia – Os participantes do encontro produziram, com os técnicos da FPI/SE, quatro quadros em cartolinas coloridas. No quadro rosa, a comunidade apontou as palavras-chave que indicam sua identidade. No verde, eles escreveram as demandas, os problemas enfrentados. As possíveis soluções e os desejos dos integrantes da Rua dos Negros ficaram registrados no quadro azul. Na cartolina branca, foi escrita a síntese com ações e possíveis parceiros.


A antropóloga Morena Freitas ressaltou que a comunidade foi bastante ativa no evento. “A fala de seu Belarmino, liderança e referência da comunidade, que retomou a história da fundação do quilombo, foi importante para estimular nosso debate”, contou a antropóloga. “A oficina foi bastante produtiva, sobretudo pela efetiva e numerosa participação da comunidade”, concluiu.
“No evento, tivemos a oportunidade de dar algumas ideias de iniciativa à comunidade, que cabem a eles próprios executarem”, explicou Morena Freitas. As informações levantadas durante a oficina serão apresentadas pela equipe na audiência pública da FPI/SE, que acontece nesta quinta-feira, 14, no município de Canindé. “As demandas e o trabalho realizado na comunidade serão levados à coordenação da FPI para os devidos encaminhamentos”, completa Marcos Paulo Carvalho.
“Esse tipo de oficina deve ser aplicado em todas as comunidades ribeirinhas, quilombolas, escolas, secretarias de educação e de cultura”, reforça a ambientalista Rosa Cecília Lima. “Como membro do Comitê, representante da sociedade civil, digo que não foi simplesmente uma oficina. Foi mostrar que a sociedade civil organizada tem muito a contribuir para a toda Bacia do Velho Chico, mesmo com todas as dificuldades”, ressalta Rosa Cecília.
A ambientalista revela que uma das propostas que surgiu no evento, e foi aceita pela maioria, é relacionada à produção do lixo. “A Comunidade Rua dos Negros seria a primeira a desenvolver o lixo zero. Isso significa que tudo que entrar na comunidade pode ser reciclado”, explica.
Rua dos Negros – De acordo com os registros da Associação Quilombola Rua dos Negros, a comunidade foi formada entre o final do século XIX e o início do século XX, por negros que saíram do litoral em direção ao sertão em busca de terras livres para habitar. As famílias se instalaram às margens do Rio Curituba, afluente do São Francisco, bem no ponto onde o rio se dividia em dois, formando três faixas de terra.
As famílias se estabeleceram, iniciaram pequenas criações de animais, como cabra e bois, e começaram a plantar milho e feijão para a própria subsistência. A caça e o uso da fibra de Croá (Neoglaziovia variegata) para a confecção de cordas, bolsas e outros utensílios também eram atividades importantes no local. A chegada de fazendeiros brancos na região pressionou a desocupação das terras pelos negros do povoado, que então se chamava Curituba. 
Com a abertura de estradas para tropeiros vindos do interior da Bahia, aumentou a presença de brancos proprietários de terras na região, e o lado norte do povoado Curituba passou a ser chamado de Rua dos Negros, criando uma divisão no local. O cercamento das áreas livres deixou os negros isolados e com menos terra para seu trabalho e sustento. Os moradores da Rua dos Negros passaram, então, a servir, em sua maior parte, como mão de obra nas fazendas dos brancos, vaqueiros ou trabalhadores “de alugado”, situação que persiste na região.
A comunidade teve sua Associação registrada em 2008 e foi certificada pela Fundação Cultural Palmares em 2013. Atualmente, está em elaboração do Relatório Técnico de Identificação e Delimitação do Território Quilombola (RTID), sob responsabilidade do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). Duzentas e trinta famílias quilombolas do local já foram cadastradas pelo Incra.
Equipe Patrimônio Cultural e Comunidades Tradicionais – É formada por técnicos da Fundação de Cultura e Arte Aperipê (Funcap), Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), Fundação Nacional de Saúde (Funasa), Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco (CBHSF), Polícia Militar de Sergipe (PM/SE), Fundação Cultural Palmares (FCP).

