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MPF e especialistas debatem municipalização da gestão das praias urbanas

Audiência pública aprofunda discussão de lei com efeitos sobre meio ambiente

Diante da nova possibilidade de prefeituras gerirem litorais antes sob gestão da União, o Ministério Público Federal (MPF) decidiu ouvir opiniões de especialistas sobre os efeitos da recente lei na prática (Lei nº 13.240/2015). Este foi o foco da audiência pública promovida no Rio de Janeiro no último dia 22, no auditório da Procuradoria Regional da República da 2ª Região (PRR2) e retransmitida online em tempo real para todo o país, por meio da TV MPF.

Nenhuma lei por si só vai transformar a sociedade. Depende dos atores sociais a garantia do desenvolvimento sustentável. Os órgãos públicos, o meio acadêmico, jurídico e a sociedade civil devem colaborar conjuntamente para traduzir em efeitos positivos para todos a aplicação da nova lei ”, afirmou a procuradora regional da República Gisele Porto, gerente do projeto “MPF pelo Gerenciamento Costeiro (MPF-Gerco)”, cuja primeira audiência sobre o tema ocorreu em junho em
Brasília.

A transferência da gestão das praias da União para os municípios, prevista na lei (art. 14), foi a questão mais abordada. O coordenador da Consultoria Jurídica junto à Secretaria de Patrimônio da União, Daniel Pais, apresentou possíveis encaminhamentos para as questões que já estão surgindo com relação à aplicação da lei. Uma preocupação compartilhada por autoridades da área ambiental foi a capacidade de municípios assumirem esse encargo. “Percebemos no dia a dia a precariedade das estruturas municipais para fazer frente a exigências da lei na hipótese dessa transferência da gestão”, ressaltou o promotor de justiça Marcos Leal, do MP-RJ. Representando o Ministério do Meio Ambiente, a analista Márcia de Oliveira acrescentou que cabe à União dar informação e instrumentos para os municípios terem uma gestão eficiente. O coordenador do programa de gerenciamento costeiro do Instituto Estadual do Ambiente (Inea), Luiz Eduardo Moraes, reputou como um desafio a extensão de 1.160 km da costa fluminense:A área é muito extensa e alvo de muitos conflitos de interesse, por causa da produção de petróleo e diversidade de ecossistemas.”

A discussão não deve se limitar à questão econômica, como frisaram outros profissionais. Para o procurador da República Felipe Bogado (Costa Verde), ainda é cedo para antever impactos ambientais e nas populações tradicionais, mas é preciso atentar que a transferência é da gestão, e não da propriedade dos terrenos. O deputado estadual Carlos Minc alertou que a preocupação ambiental de municípios costuma ser secundária: “Espero que a transferência de gestão, que acho positiva, não afete a proteção das populações tradicionais e do litoral, que é uma das áreas menos protegidas.” O procurador da República Rodrigo Golivio Pereira (Região dos Lagos) opinou que os municípios sofrem com deficiências no quadro técnico, pois a maioria dos servidores não sabe como proceder e gerir questões sobre a legislação ambiental. Também se manifestaram pelo MPF o procurador Renato Machado (Procuradoria Regional dos Direitos do Cidadão-RJ) e o procurador regional Luís Cesar de Queiroz (Procuradoria Regional da República da 2ª Região-PRR2).

O
superintendente substituto do Ibama, Adilson Gil, afirmou que o instituto responderá pelo acompanhamento da gestão: “Acreditamos que os municípios podem fazer uma gestão melhor dos recursos, pois estão mais próximos e conhecem melhor a realidade local, mas o Ibama pode retomar a gestão para a União se as leis não forem cumpridas”. Para o oceanógrafo e professor Paulo Fernando Harkot, um risco da municipalização é perder de vista biomas, processos oceanográficos e outros elementos com escalas maiores.

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